Dever Incompleto
João Cravinho voltou, na semana passada, a criticar as medidas contra a corrupção que o PS propôs em alternativa às suas propostas, que o PS rejeitou no ano passado. Cravinho volta a falar da grande corrupção de estado, que segundo ele está a aumentar. Nestas afirmações não há nada de novo, todos nós sabemos o que ele acha. Mas Cravinho disse algo de novo, disse que achava ter comprido o seu dever e que tinha sido abatido pelo “inimigo”. Aí é que o senhor ex-deputado está enganado.
Cravinho tentou levar à assembleia, ano passado, uma lei contra a corrupção que obrigava aqueles que tem sinais exteriores de riqueza a provarem que não obteram essa riqueza por meios ilegais. Para todos nós isto parece uma brilhante ideia. Mas, para além da complexidade legal de inverter o processo de prova, existe um problema muito óbvio. Para passar esta lei Cravinho tinha de fazer pelo menos metade dos 200 e tal caramelos do hemiciclo aceitar a lei. Ora, os deputados estão na assembleia para lutar pelos interesses do partido e daqueles que lhes pagaram a campanha eleitoral, e destes últimos nenhum gostou desta lei. Teria mais fácil fazer o concelho do Vaticano aprovar a livre prostituição dentro da cidade do Vaticano.
Olhando bem para os factos é muito improvável que João Cravinho alguma vez tenha acreditado que a sua proposta de lei contra a corrupção passasse a lei. E o único resultado foi um aumento de protagonismo politico e um novo emprego para Cravinho. Na realidade não vejo onde o senhor ex-deputado possa ter comprido o seu dever para com o povo português. Mas também não penso ser possível que alguém sozinho consiga mudar as coisas em Portugal. O maior problema é que a maioria dos portugueses aceita a corrupção, não a dos outros, mas a que lhe dá jeito. Assim nunca poderemos ter bons políticos, porque eles são uma reflexão do povo que temos…